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O desafio de democratizar o acesso às oportunidades
Em muitos territórios, as oportunidades econômicas já existem. O desafio é garantir que mais pessoas consigam acessá-las.
Quando falamos sobre desenvolvimento social, é comum associar oportunidades à criação de novos projetos, novas vagas ou novas iniciativas. Mas e quando as oportunidades já existem? E quando o desafio não é criá-las, mas garantir que elas sejam acessíveis para quem historicamente ficou à margem delas?
Essas perguntas ajudam a ampliar a forma como enxergamos a mobilidade socioeconômica. Porque, em muitos territórios brasileiros, o problema não está necessariamente na ausência de potencial econômico. Está na dificuldade de acessar redes, formação, informação e caminhos que permitam participar dessa economia de forma sustentável.
É nesse ponto que educação, qualificação profissional e desenvolvimento territorial deixam de ser ações complementares e passam a ocupar um papel estratégico.
Um setor que já movimenta bilhões
No Rio de Janeiro, a economia criativa é um exemplo disso. Segundo o estudo inédito “Mapeamento da Indústria Criativa do Rio de Janeiro”, produzido pela Prefeitura do Rio, por meio das Secretarias Municipais de Cultura (SMC) e de Desenvolvimento Econômico (SMDE), e da Riotur, em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a indústria criativa movimenta aproximadamente R$ 41 bilhões por ano e já representa cerca de 8% do PIB da cidade.
Por trás desses números estão milhares de profissionais, empreendedores e pequenos negócios que atuam em áreas como audiovisual, música, design, moda, gastronomia, comunicação, produção cultural, tecnologia e economia digital.
Não se trata de um mercado emergente. Trata-se de uma economia já consolidada e relevante para o desenvolvimento da cidade.
Ao mesmo tempo, o acesso às oportunidades geradas por esse setor ainda é desigual. Muitas pessoas que vivem nos próprios territórios onde essa economia acontece encontram barreiras para acessar formação, conexões profissionais, mentorias e oportunidades de crescimento.
O território também produz riqueza
Historicamente, boa parte do debate social foi construída a partir das “carências” dos territórios, como a falta de:
- serviços
- equipamentos
- investimentos
Embora esses desafios sejam reais, existe uma narrativa igualmente importante que precisa ganhar espaço: os territórios também produzem riqueza, conhecimento, cultura e soluções.
Reconhecer isso muda a lógica de atuação.
Em vez de partir da ideia de que é preciso levar respostas prontas para determinados locais, passamos a olhar para aquilo que já existe e perguntar: como ampliar o acesso às oportunidades geradas por essas potências?
Essa mudança de perspectiva tem orientado cada vez mais iniciativas voltadas ao desenvolvimento local e à inclusão socioprodutiva.
Democratizar acesso é ampliar possibilidades
Foi a partir dessa leitura que surgiu o edital VOA, iniciativa do Instituto Cury realizada em parceria com a co.liga (escola digital da Fundação Roberto Marinho) e a ESPM Rio.
O programa busca fortalecer empreendedores e iniciativas da economia criativa da Zona Portuária do Rio de Janeiro, conectando formação, desenvolvimento de negócios e construção de redes.
Mais do que criar uma nova atividade econômica, a proposta busca ampliar o acesso a uma economia que já movimenta a cidade e que possui enorme potencial de geração de renda, pertencimento e desenvolvimento local.
Como destaca João Alegria, secretário-geral da Fundação Roberto Marinho:

“Juntos vamos atuar na região portuária do Rio de Janeiro, desenvolvendo competências empreendedoras para que as pessoas possam aproveitar uma enorme quantidade de oportunidades de desenvolvimento pessoal, econômico e comunitário que já existem no território. O que nos une nessa parceria é justamente o compromisso de contribuir para que mais pessoas consigam acessar essas oportunidades.”
A lógica é simples: quando pessoas têm acesso a conhecimento, conexões e oportunidades, aumentam suas condições de participar de mercados que já existem e de construir seus próprios caminhos dentro deles.
O papel do investimento social
Essa reflexão também traz uma provocação para o campo do investimento social privado: nem sempre gerar impacto significa criar algo novo. Em muitos casos, significa:
- remover barreiras;
- conectar pessoas a oportunidades que já existem;
- fortalecer trajetórias que já estão em construção;
- e criar condições para que mais pessoas possam participar da vida econômica de seus territórios.
É nesse movimento que educação, formação profissional e inclusão socioprodutiva tornam-se instrumentos de mobilidade socioeconômica.
Porque oportunidades isoladas têm alcance limitado. Mas quando o acesso a elas é democratizado, seus efeitos podem alcançar muito mais pessoas.
Um presente construído com mais acesso
Acreditamos que o desenvolvimento territorial passa por reconhecer as potências existentes nas comunidades e ampliar as condições para que elas sejam acessadas por mais pessoas.
A economia criativa é uma dessas potências. E iniciativas como o VOA e nossos outros projetos mostram que promover inclusão não é apenas criar oportunidades inéditas, mas garantir que oportunidades já existentes possam ser compartilhadas de forma mais ampla.
Porque, muitas vezes, o desafio não é criar oportunidades. É democratizar o acesso a elas.
